Ela olhou para as sapatilhas e forçou-se a ganhar ânimo para as tirar. Uma tarefa tão simples em qualquer outro dia, mas tão difícil naquele momento. Ela sabia que havia certas coisas na vida que não podiam ser evitadas, que quando tínhamos de fazer ou dizer algo que nos enervava, era impossível de evitar. E as suas consequências também. Estivera tão certa na altura, no momento em que dissera a sua sentença, o que, supostamente, sentia no momento.
Seria possível que se tivesse arrependido? Não, constatou. Tudo o que dissera na altura continuava a soar-lhe verdadeiro na sua cabeça. O que ainda a chocava fora a calma dele. Concordara com o que ela lhe dissera, talvez nem tivesse chorado como ela. Mal pousara o telefone as lágrimas tinham corrido pelo seu rosto abaixo. Mas no momento não corriam.
Forçou-se a desatar as sapatilhas, a mandá-las para o outro lado do quarto. Até a forma daqueles sapatos lhe traziam recordações. Na realidade para onde quer que olhasse em volta naquele quarto, lembrar-se-ia dele. Como apagar um amigo da nossa vida? Para ser verdadeira, não devia ser um apagar. Apenas um atenuar. De qualquer maneira, era difícil. Até se lembrava de quando dormiam os dois naquele quarto, conversando até de manhã.
Vestiu o pijama, pegou na almofada e nos cobertores e foi dormir para a sala.

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