Ela levantou-se e tomou banho. Vestiu um vestido preto simples, sentou-se na cadeira e colocou os óculos. Entrelaçando os seus pés com os da cadeira, pegou num pincel e prendeu o cabelo numa bola artística. Ainda tinha tinta que lhe caiu nos fios castanhos, tingindo-os de azul-claro. Se não fosse o banho que tomara, teria apenas se juntado a uma palete de manchas de tinta seca. Mas ela não se importava. Mordeu outro pincel, enquanto procurava por um pano em cima da mesa, entre os pincéis, os tubos, o copo com água. Estava suja. Tinha de a ir trocar.
Levantou-se, ainda mordendo o pincel. Lá estava o pano, a secar na torneira. Nem o vira quando fora tomar banho. Trocou a água, pegou no pano, voltou para o seu poiso. A tela fitava-a, já preenchida por um retrato dele. Na noite anterior queria tê-lo acabado, mas desistira quando quase caíra do banco, sucumbindo ao sono. O sol já nascia quando finalmente se deitara na cama. Agora, depois de ter dormido quase todo o dia, sentia-se pronta para acabar. Tinha de o fazer antes que todas as recordações dele se fossem.
Tal como ele.
Era estranho pensar que já não o tinha ao seu lado. Que o rosto que estava a pintar já não seria o primeiro que lhe viria à mente quando precisa de falar com alguém. Na realidade, talvez continuasse a ser, mas não poderia pegar no telemóvel e lhe telefonar. Porque ele se fora. A pressão que fez com os dentes seria a suficiente para partir o pincel, se ainda o estivesse a morder. Porém a sua mão manteve-se firme à medida que o retrato ia sendo completado.
Os olhos verdes estavam perfeitos, constatou com um sorriso triste. Seguiam-na por todo o quarto quando se mexia, quando fazia as pausas estritamente necessárias. Deixou os lábios para último. Os lábios perfeitos, que tinham palmilhado cada canto do seu corpo, que eram a sua bússola. Ria quando eles riam, chorava quando eles se entristeciam. E vivera naquele amor, naquela idolatria com uma força e uma dependência que agora a estavam a destruir.
Só se mantinha inteira quando pintava. Durante meses tentara criar o retrato perfeito dele, mas havia sempre algo que não estava bem. Ou eram os olhos, aqueles olhos, que não tinham aquela expressão característica ou faltava a covinha na bochecha direita. Finalmente conseguira conjugar todas as características perfeitas na noite anterior. Agora pintava com uma sofreguidão devota.
Sabia que aquilo era uma vitória. Pintou os lábios e sorriu. O quadro estava pronto e fazia jus ao modelo. A primeira luz da manhã entrou pela janela. Mais uma noite se passara, constatou com admiração. Arrastou-se para o banho, deixou que a água lavasse de si toda a tinta. O rosto na sua mente desapareceu e ela deslizou. Sentou-se. Durante horas a água caiu sobre o seu corpo passando de quente para fria. Acabara-se o gás. Devia ter pedido uma botija nova há três dias.
Não se lembrara.
Tal como não se lembrava porque é que se esquecera. Porque é que se esquecera de algo tão básico. Levantou-se, tiritando, secou-se e vestiu-se. Ia pegar no telefone quando viu que era de noite. Já? Telefonaria no dia seguinte. Mas… porque estava o quarto tão desarrumado? O chão cheio de manchas de tinta? Tinha de o limpar ou nunca mais as ia conseguir tirar. Peguei nos tubos pelo chão, esfreguei as cores do meu chão de madeira e cheguei ao foco principal. Ergui os olhos e vi, num cavalete, um retrato de um dos mais bonitos rapazes que alguma vez conhecera. Olhos verdes, cabelos negros, lábios perfeitos.
Porém não me lembrava de pintar aquele quadro. Creio, também, que seria impossível esquecer tal rapaz. Franzi o sobrolho, mas optei por não fazer mais perguntas. Caí na cama e adormeci.

...
ResponderEliminarPegando na nossa "conversa", sofrer em silêncio é um direito de cada um de nós... Mas não precisas... Meter tudo para trás das costas não é solução, acredita. Been there, não com a mesma intensidade, mas ainda mais razão isso me dá.
Tens com quem falar, sabes? Eu posso parecer muito puto, muito irresponsável, muito chato, mas é tudo na brincadeira, tu sabes, portanto se algum dia quiseres ter uma conversa séria, daquelas que nos deixam mais leves e mais animados, não hesites em... convidar-me para uma partida de Magic xD
Não, falando muito a sério, sabes que eu estou aqui para o que der e vier :) Não é só a Sara que se preocupa contigo...
Nhaaaaa....k texto bonito!!
ResponderEliminarse bem k para o final fikei meio confuso pk passaste da terceira para a primeira pessoa assim d repente...mas acredito k tenha sido intencional...
agora lendo o comment do renato...fikei com a sensação k s passa ou passou algo k eu n sei... e não gosto disso. s kiseres falar ja sabes k tou aki pa ti maninha...ker seja de Minna para Nash, de Kiz pa Set ou pura e simplesmente de Marina para Francisco.
Sabes k és das pessoas mais importantes na minha vida! Adoro-te muito patcholi!
Eu gostei, escusado será dizer.
ResponderEliminarE sou omnisciente.
E tu também.