Ela olhou para as sapatilhas e forçou-se a ganhar ânimo para as tirar. Uma tarefa tão simples em qualquer outro dia, mas tão difícil naquele momento. Odiava ser quem era, ter a personalidade que tinha, e ter o aspecto que tinha. Desejava ser outra pessoa qualquer, uma pessoa cujo coração não estivesse constantemente a doer. Só porque o vira. Não o via, ou sequer pensava, nele há mais de um mês e tivera a certeza de que o que quer que sentia por ele já se fora. Mas quando ele aparecera, surgira naquela praça no meio de um grupo de pessoas, não conseguira desviar os olhos dele. Entreabrira a boca, tão fascinada por aquela beleza de menino grande que desde o primeiro momento a cativara.
Teria abanado a cabeça, mas sentia-se demasiado abatida para sequer realizar aquela tarefa e usou a energia para tirar as sapatilhas. No mesmo fôlego despiu-se e enfiou-se na cama. Olhou para o tecto e era impossível pensar noutra coisa que não nele. Já amara muitos – mas apenas um correspondera – e a única coisa que todos aqueles casos tinham em comum era serem autênticos segredos e de cada vez sofrer mais do que a anterior. Aquela não seria diferente. Até que ele saísse do seu coração, iria ter novas feridas no seu ser que só fechariam daí a muito tempo. Mesmo assim de cada vez que tocasse numa daquelas cicatrizes, a dor seria a mesma do que a de uma ferida aberta.
Queria chorar. Sabia que, se as lágrimas corressem pelo seu rosto, molhassem a almofada como tantas vezes já o tinham feito, as coisas seriam muito mais fáceis. Mas não conseguia. Apenas sentia aquele bolo no fundo da garganta e uma dor no coração tão profunda que não compreendia como a conseguia suportar. Demorou a adormecer, pensando nele, em como queria ser outra pessoa e poder amar com alegria.
Sonhou com mundos perfeitos…
…onde ela era ela mesma.

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