– Estás bem? Tens a certeza do que estás a fazer?
Olhei de lado para Patrícia e ela calou-se, olhando para o chão, desenhando algo com a ponta da sapatilha. Eram duas das perguntas mais ridículas que ela poderia fazer naquele momento, e ela sabia-o muito bem. Como é que eu poderia estar bem? E claro que tinha de ter a certeza do que estava a fazer. Era mais forte do que eu, tinha de a vir ver uma última vez antes de partir. Uma última vez mais antes de a deixar ser do homem que a amaria mil vezes mais do que eu. Da pessoa que eu mais odiava mas que seria o melhor na vida dela.
– Than… – ouvi Patrícia murmurar. – Temos de nos ir embora. Estão à nossa espera.
Desta vez ignorei-a quando, do outro lado da rua, a porta da casa que eu observava se abriu, despejando luz para o jardim impecavelmente cuidado. Uma silhueta masculina estava recortada e, apesar da distância ser grande, eu sabia bem quem ele era e conseguia ouvir a sua voz simpática a falar com ela e com o seu pai. O pai dela sempre mostrara uma simpatia infinita para com ele, enquanto para mim sempre reservara antipatia. Os risos ergueram-se na noite, ela deu-lhe um beijo nos lábios e ele foi até ao seu carro, um Porsche – uma irritante exibição da sua fortuna, se quisessem a minha opinião –, e foi-se embora. Quando o seu carro desapareceu no fundo da rua e todas as janelas da casa foram dominadas pela escuridão atravessei a rua.
– Than! – exclamou Patrícia num murmúrio. – Vamos nos meter em sarilhos por causa disto! Grandes sarilhos.
– Não te pedi para me acompanhares! – redargui, rispidamente enquanto trepava agilmente à árvore. – Vai-te embora se estás tão assustada.
– Não estou assustada – respondeu-me ela, cruzando os braços à frente do peito numa clara ostentação da sua teimosia. – Estou preocupada e para além disso não me posso ir embora. Prometi ao Kyle que não te deixava um único minuto e ele não iria ficar muito feliz se soubesse que quebrei a minha promessa. Vamos embora!
– Pat, faz um favor a ti mesma – sussurrei já do ramo da árvore mais próxima da janela do quarto dela. – Cala-te. Ou então vai-te embora e diz ao Kyle que eu te fugi.
Ela fungou claramente divertida com essa visão dos acontecimentos, sabendo tão bem quanto eu que Kyle não iria acreditar naquilo. Ninguém fugia de Patrícia.
– Eu calo-me então – consentiu. – Mas despacha-te.
Anui silenciosamente e, para meu grande espanto, constatei que a janela estava aberta. Entrei sem fazer um único ruído.
– Estava a ver que não vinhas, Thanatos.
Ouvir aquela voz tão doce dizer o meu nome sem recorrer a um diminutivo foi mais do que eu realmente conseguia aguentar. Sentindo as lágrimas a aflorarem-me aos olhos, virei-me lentamente. Como já esperava ela estava sentada no pouf que tinha num canto do quarto e olhava-me com algo entre um sorriso e um franzir de sobrolho. Por momentos cheguei a questionar-me se ela realmente tinha tanta toda a certeza que eu iria ali como tentara demonstrar quando eu entrara, ou se tivera apenas sorte. Mas conseguia ver o brilho nos seus olhos e soube que ela não sabia simplesmente que eu ia ali.
Tinha a certeza.
– Tinha de vir, Liebe – murmurei. – Uma última vez tinha de vir.
Ela levantou-se e, quando a luz dos candeeiros de rua atingiu o seu rosto, fiquei, como era normal, paralisado pela sua beleza. Os cabelos ruivos e que eu já tivera tantas vezes entre os meus dedos emolduravam-lhe a cara angelical e os dois orbes cinzentos como o céu numa manhã de Inverno fitavam-me com tal intensidade que perguntei se ela não me estaria a ler os pensamentos.
– “Última” – ela repetiu a palavra como se a estivesse a saborear na língua. – Porque tem que ser última?
– Porque tu te vais casar.
– O que quer isso dizer, Thanatos? – murmurou, dando um passo em frente. – Diz o que quero ouvir e atiro este anel pela janela. Diz-me que queres estar comigo para sempre. Que queres passar a eternidade comigo!
Ela abraçou-se a mim e envolvi o seu corpo frágil com os meus braços, sentindo-a a encaixar-se em mim como se fossemos duas peças do mesmo puzzle. Todo o meu mundo era perfeito naquele simples momento e o tempo poderia parar que eu nunca iria pedir mais. Porém obriguei-me a aceitar o que me fora dado a mais.
– Eternidade é muito tempo, Liebe – respondi, afastando-a de mim. – Nenhum de nós sabe o que essa palavra significa.
A sua característica expressão de menina mimada surgiu no seu rosto para meu grande desprazer, pois raramente resistia àquele beicinho. Suspirei e virei-lhe as costas.
– Esse anel é a tua maior bênção – declarei, sem querer dizer o nome do noivo dela. – Não a deites fora por alguém como eu.
– Não me amas?
– Mais do que qualquer coisa na minha vida – respondi, sem pensar. – Mas ele ama-te mais.
– Eu amo-te mais do que o amo a ele.
Sorri.
– Serás mais feliz com ele.
– Than…
Antes que ela pudesse dizer algo saí pela janela e, sem um ruído, desci da árvore, aterrando ao lado de Patrícia sem um som. Ela fumava um cigarro calmamente, encostada ao tronco da árvore, e eu torci o nariz perante o fumo.
– O que é que foi? – perguntou. – Tu estavas no teu vício, eu vim para o meu.

0 comentários:
Enviar um comentário