Bem, achei por bem adicionar aqui uma coisinha a falar do blog já que parece que andam a haver alguns mal-entendidos. Primeiro que tudo, nem todos os textos que publico no blog são auto biográficos. Nem em todos as emoções de que falo são as minhas.
Os textos em que realmente há realidade são os da "saga das sapatilhas", onde momentos, sentimentos ou vários momentos do que ando/andei a passar são compilados.
As poesias também compartilham esta característica, mas muitos dos textos criativos são apenas isso, textos criativos.

Por isso, obrigada pela preocupação, mas está tudo bem... Ou pelo menos vou fazer de tudo para isso =)

Do ya think I'm:

Sábado, 11 de Abril de 2009

Choveu a semana passada. O parque cheira a limpo e ela caminha de bloco debaixo do braço, alheada de tudo, menos da natureza que a rodeia. As folhas caem delicadamente não fazendo qualquer ruído quando aterram, douradas, no chão de terra batida. No lago saltam peixes coloridos e lânguida, mas atentamente, os patos deslizam pela superfície. Ela olha para cada um deste pormenores e sente formigueiros nas mãos e uma ânsia de se sentar e desenhar tudo o que vê. Mas neste dia tem as suas folhas reservadas para algo mais. Continua o seu caminho e chega ao ponto que estava registado na sua mente há muito tempo. Senta-se, vira a primeira folha do bloco e começa a desenhar.

Na folha começa a surgir a árvore, os ramos desnudos, o ninho coberto pelo corpo de uma pomba branca, com uma das asas caídas para fora dele. Os olhos estão abertos, ou então pareceria que dormia e não que o seu pequeno coração deixara de bater. Não havia sangue num único ponto do seu corpo e ela não sabia como aquilo fora possível.

Porém o espectáculo fascinava-a macabramente. Pensara naquilo durante toda a semana, fechada no seu quarto, tomando os seus comprimidos, bebendo a sua água e comendo as suas refeições. Aquele cenário dominara-lhe o espírito e apenas o queria desenhar, apesar de não poder sair. Não sabia porquê, mas sentia em si que não podia sair. Temia que a pomba desaparecesse e por vezes quase chorava ao pensar nisso e não sabia se o conseguiria desenhar de memória. Quando saíra naquela manhã, não sabia o que esperar, mas tivera sorte. O seu cenário perfeito ainda ali estava.

Desenha-o o dia todo. Vezes e vezes sem conta. Só pára quando está demasiado escuro e os riscos do lápis já não se distinguem da folha, nem o corpo da pomba do ninho. Volta no dia seguinte. Não comera nada, não bebera, mal dormira. Está dominada por um desejo febril e insano. Não tomara os comprimidos.

Chovia no dia em que a encontraram caída sobre o seu bloco de desenhos. Desenhada vezes e vezes sem conta estava a mesma árvore, com o mesmo ninho e com a mesma pomba morta. Foi impossível identificar qual era a árvore, pois perto dela não havia nenhuma com uma pomba morta, ou sequer com um ninho.

1 comentários:

  1. Adoro este texto... lembra-me a loucura do pianista, naquela crónica que escrevi em Escrita Criativa :D

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