As noites tornavam-se longas. Á medida que ela tomava consciência de que ele fora de vez, as noites estendiam-se por mais horas do que era natural. Doía lembrar-se de que antes partilhava a cama com ele, de que tinham feito amor por entre aqueles lençóis e ele lhe jurara que a amava mais do que a vida. Fora uma mentira perfeita em que ela acreditara ingenuamente. Quanto doía a confiança cega nuns olhos que pareciam ser verdadeiros. Quanto doía o espanto mudo pelas palavras proferidas com doçura.
As noites estenderam-se então à sua frente, tão solitárias que o seu coração se partiu em mais do que dois. Os pedaços espalhavam-se por toda a casa, até por todo o seu mundo. Por vezes julgava que estava forte o suficiente para pegar num desses cacos e encaixá-lo nas feridas abertas, mais isso apenas levava a que as coisas piorassem. E de mãos e coração cortados por aquele pedaço aguçado, encarava sem coragem outra noite ainda mais longa pelas memórias avivadas pelas feridas recentes.

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