Bem, achei por bem adicionar aqui uma coisinha a falar do blog já que parece que andam a haver alguns mal-entendidos. Primeiro que tudo, nem todos os textos que publico no blog são auto biográficos. Nem em todos as emoções de que falo são as minhas.
Os textos em que realmente há realidade são os da "saga das sapatilhas", onde momentos, sentimentos ou vários momentos do que ando/andei a passar são compilados.
As poesias também compartilham esta característica, mas muitos dos textos criativos são apenas isso, textos criativos.

Por isso, obrigada pela preocupação, mas está tudo bem... Ou pelo menos vou fazer de tudo para isso =)

Do ya think I'm:

Domingo, 22 de Março de 2009

Ir e Ficar

– Eu não quero ir – murmuraste.
Eu suspirei, sorri-te tristemente, o sorriso mais triste que fiz em toda a minha vida, e abracei-te, puxando-te contra mim como se esperasse que te mesclasses com o meu corpo. Mas o máximo que fizeste foi enrolar os teus braços em volta do meu torso, encostando-te ao máximo contra mim. Respirei fundo, aspirando o cheiro do teu cabelo, um cheiro que não era mais que isso, um simples cheiro, algo que eu nunca iria conseguir descrever, mas que me arrepia cada vez que me lembro dele. Tu repetiste novamente “Eu não quero ir”, o tantra que repetias todos os dias a todo o momento. Porém eu sabia que mentias, que querias ir embora. Que querias sair daquela terra desde que isso significasse ir para longe dali, para longe de um local que tu nunca amaras, muito pelo contrário sempre odiaras. Querias ir embora mesmo que isso significasse ir para longe de mim.
Dei um suave beijo no topo da tua cabeça e foi finalmente então que ganhei coragem para dizer as palavras que ensaiava desde a noite anterior:
– Eu não quero que fiques.
Vi o choque no teu rosto quando te afastaste de mim, as lágrimas a inundarem os teus olhos e a caírem quando os fechaste com força, abanando a cabeça. Sabias que eu estava a mentir, tão bem quanto eu sabia que não dizias a verdade, mas não esperavas que eu entrasse no jogo. Não esperavas que eu tivesse coragem de te dizer algo que te fosse magoar, parecendo que querias ser tu a provocar toda a dor, minimizada pelo teu tantra.
– Mentes – disseste.
E encostaste-te novamente ao meu corpo, deixando-me a sentir um pecador por realmente querer que ficasses comigo, mas amava-te demais para te deixar murchar naquele ambiente. Não te queria tanto quanto te amava, e foi isso que nos condenou. Eu condenei-nos.
– Tens de ir.
Tu anuíste, olhando para mim quase implorando que eu pedisse que ficasses, que eu te amava e que queria que ficasses. Mas não o disse. Eu amava-te, mas não queria que ficasses. As lágrimas inundaram-te os olhos, mas não transbordaram desta vez e tu pegaste na tua mala, saindo de casa, deixando-me sozinho. Toquei na porta com as pontas dos dedos e fechei os olhos, sabendo que nunca mais te veria.
Nas semanas seguintes dediquei-me ao ritual para fazer com que não conseguisses me contactar, para que soubesses que te estava a evitar e que nada te seduzisse a voltar. Recusava as tuas chamadas no telemóvel, se respondia aos teus e-mails era com monossílabos, deixando bem claro que não queria que olhasses para o passado, e deixava o atendedor de chamadas receber todas as minhas chamadas, sentindo o meu coração a doer de cada vez que ouvia a tua voz numa mensagem.
Os meses passaram, sempre pensando em ti e sempre te ignorando. Depois de algum tempo as tuas chamadas cessaram, deixaste de me mandar e-mails e nem mais uma das esporádicas cartas voltei a receber. Sentia-me triste, triste por saber que desistiras de mim, mas ao mesmo tempo não consegui deixar de me sentir orgulhoso e feliz, sabendo que toda a minha dor te dava alegria. Conseguiras seguir em frente e isso era o suficiente para mim.
Os anos passaram sem eu dar por isso. Passei os vinte e cinco, os trinta e, quando estava quase nos trinta e cinco tu apareceste novamente na minha vida. A nossa pequena cidade crescera, iria ter direito a um centro comercial e eu, como tinha perdido o meu emprego há pouco tempo, candidatara-me a um posto num bar da grande superfície, que me fora dado. No dia da inauguração vi-te. O meu coração deu um salto quando olhei para as pessoas sentadas no balcão e tu, anos mais velha mas ainda linda, o mesmo pecado que me tentara anos antes, estavas ali. Olhaste para mim e ficaste branca e os teus olhos encheram-se de lágrimas que, novamente transbordaram.
– O que desejam? – perguntei, fingindo que não te conhecia.
Não disseste nada, fixaste os olhos no balcão e deixaste que a tua amiga pedisse por ti. Mal tocaste no que te foi pedido e ficaste sozinha no fim da refeição, enquanto a tua amiga foi falar com alguém. Tu pagaste e, no momento em que fui pegar no dinheiro, tocaste na minha mão.
– Como estás?
– Casado.
Recolheste a mão e fizeste um sorriso conformado. Vi-te a afastar e culpei-me. E se tivesses estado todo aquele tempo à minha espera? Eu estava! Por mais que me tivesse mentido ao longo de todos aqueles anos eu esperara por ti, para te ter para mim para sempre. Comecei a lavar a louça tão violentamente que parti duas xícaras. Sentia-me irritado comigo mesmo e só te queria ver novamente e dizer que tinha mentido, que estava sozinho e que para sempre o iria estar se não te tivesse comigo.
Nessa noite fui para casa tarde e encontrei-te à porta do prédio. Levantaste os olhos para mim e sorriste. Sabias que eu tinha mentido. Tinhas falado com alguém com certeza. Aproximaste-te de mim e abraçaste-me, deixando-me sem qualquer outra opção se não agarrar-te, puxar-te para mim.
– Eu não quero ir – murmuraste.
– Eu quero que fiques.

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